18.12.07

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UAI CU 1 RIO



Compor não é harmonizar espaços nem tampouco desarticulá-los. Compor é, antes de tudo, aproximar, isto é, avizinhar-se a algo num processo de relações. Há vizinhança de muro, de cerca, de abandono, de janela, porta, andar, calçada, rua, bairro, praça, cidade etc. Fronteiras, composição. Não há fronteira entre a sua rua e a do seu vizinho de porta/estado. Qual a fronteira da fronteira? Somos errantes enquanto compomos com a ambiência que é cada um. Áreas reticul(ar)es.

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Desfazendo-se das amarras da relação sujeito/objeto, preferimos encarar todo ser como ambiência, ou seja, junção de espaços desterritorializados, rizomáticos, espaços que, antes de se constituir como, são espaços, são húmus. O divíduo (aquele que se divide, por oposição ao indivíduo, seja ele sujeito ou objeto), o território, a ação, a feira: tudo é ambiência.

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O GPCI, desde 1992, desenvolve pesquisas artísticas em diferentes frentes, retaguardas, sem guardas, arriscando. Agora, partindo dos pressupostos supra-citados, desenvolve sua pesquisa em Composição Urbana, Ueb Arte Iterativa (UAI), e suas conseqüentes mudanças lexicais que partem de pensamentos vagabundos. Intervenção Urbana denominamos Composição Urbana (CU), pois, entendemos a arte como mais uma forma de praticar, part®ilhar, per-correr, particip-ar o espaço da cidade. CU tem a mesma importância que o pipoqueiro, o carroceiro, as pessoas na parada de ônibus, o cd pirata, o bar, o silêncio, a derrapada, bateu! Todos considerados Composição Urbana, expressão-errante-cidade, multi-humana-mídia.

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A arte urbana gagueja na linguagem da cidade como o feirante aguça o gaguejar corporal dos transeuntes. Em síntese, em todas essas dinâmicas, a figura do errante transparece.

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CU é realizada pelo Corpos Informáticos, como parte de um portal web, em desenvolvimento, UAI: ueb, porque estamos no Brasil e reivindicamos aglutir a cultura ‘global’ estadunidense; arte; iterativa. Os processos iterativos aceitam, desejam, in-corpo-ram um compartilhar não reduzindo a criação a um sentido imposto unilateralmente pelo artista, mas abrindo-se a uma escuta ao irredutível do outro. Aqui vemos que a criação coletiva é outro foco deste trabalho artístico.

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Um dos grandes impasses da arte que utiliza tecnologias de ponta, hoje, é a conciliação do espaço da internet e do espaço ‘real’. A superação desta questão traz promessas. Não haverá consenso. Impasses são geradores de possibilidades. Em CU e UAI, buscamos avizinhar o espaço ‘virtual’ do espaço ‘real’. Conciliar espaços seria uma forma de torná-los ‘vacas mansas’, harmonizá-los em soluções bem articuladas e determinar, de antemão, o futuro de suas relações, empacotá-los em praticidades, domá-los. Este, definitivamente, não é o papel da arte. Deixaremos esta função à publicidade, aos enxames de informação, à hiper-indústria. A arte não concilia, a arte compõe, busca o conflito, revela o aflito, o imperceptível da linguagem. A arte é conflito, aquele de estar só e ser tudo em sendo todo com o desejo e no flerte; aquele de estar junto e permanecer uno em sendo tudo no desejo.

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Tudo é ambiência. Tudo é espaço e tempo e compõe. A composição se dá entre as ambiências do ser, entre relações de vizinhanças, entre os fluxos de espaços e nos tempos. Maria-sem-vergonha.[1]
Ainda agora o cozinheiro ajustava seus espaços de fluxo em um lugar de rede. A informação nômade capitalista (a informação capitalista não é nômade) oferece um leque estreito de possibilidades. Busca-se controlar por meio da informação. A televisão oferece ‘descanso’ ao trabalhador. O vice-versa, desistente, é pobre. No entanto, a ambiência de todos sofre um ‘aconchego’ informativo, tornando-se um lugar interno aberto aos movimentos externos do capital. Sofrer um ‘aconchego’ também significa aconchegar-se no sofrimento. Aqui o autocontrole impera, cega. Em busca de frestas, propor CU, propor UAI, ser pipoqueiro em tardes quentes e secas na frente do Congresso Nacional, ser errantes na Esplanada dos Ministérios. Meu passo mede 80 cm e a distância conta-se em anos-luz!
[1] Utilizamos, e fundamos, aqui, o conceito de Maria-sem-vergonha, que vai além do conceito de rizoma de Deleuze e Guattari. A Maria-sem-vergonha é rizoma, erva, e se reproduz tanto rizomaticamente, isto é, através de reprodução assexuada, vegetativa, quanto por reprodução gametogênica. Por outro lado, a imagem de suas cápsulas contendo sementes, cápsulas que explodem espalhando estas sementes ao azar, nos inspíra um pensamento sobre o ‘em potência’. Salientamos que apesar de crescer por todo o Brasil, com desenvoltura, a Maria-sem-vergonha é de origem de Zanzibar, o que nos permite ir além no pensamento do conceito de rizoma: contaminações inter-continentais. Outras contaminações inter-continentais são: o coco ‘da Bahia’, o café e a cana-de-açúcar.

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Gilles Deleuze (1992) fala da passagem de uma sociedade disciplinar, analisada por Michel Foucault, para uma sociedade de controle. Uma sociedade disciplinar se configura em confinamentos, modelos prontos, sempre num recomeço: da família à escola, da escola ao trabalho. Já as sociedades de controle operam por processos intermináveis, fluxos silenciosos, modificáveis.
Foucault (1979) diz que o poder transparece no corpo e que a consciência do corpo se realizou quando houve investimento do poder sobre este. Hoje, buscamos o corpo saudável, o belo, isto é, o corpo anoréxico da modelo de moda. O regime desgasta o cozinheiro em atitudes anti-culinárias. Na sociedade contemporânea, a Internet também pode se configurar como um espaço de autocontrole: não ficamos um dia sem conferir e-mails, deixamos o cheiro matinal e o transferimos para o embaço da tela gelada do computador, a conexão com o mundo que se mascara sob o título de global. Queremos ser fluxo sem saber como se constitui o nosso lugar: nosso lugar aqui, nosso ou topos na rede mundial de computadores.
[1]
[1] O “Corpos informáticos” consta 546 vezes no site de busca, “Bia Medeiros”, 848 vezes, “Fernando Aquino Martins”, 38 vezes. Existimos? “Hitler” aparece 38.900.000 vezes no site de busca, “Che Guevara” 7.240.000, “Milton Santos” 301.000.

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Não é possível pensar na dualidade binária de ‘estar conectado’ e ‘não estar conectado’. O que é estar conectado? Há uma maneira de desconectar? Importa conectar-se? E se falharmos?

Uma mulher entra em um estabelecimento comercial acompanhada de outra mulher com uma câmera, que registra toda a ação: O vendedor, não apostos atrás do balcão, vem de fora e se assusta com a câmera. Passa por traz da cinegrafista, abaixa o boné escondendo o rosto e em nenhum momento ousa olhar em direção à câmera. A primeira mulher pede algo, paga, ele dá o troco. A transação termina e a câmera é desligada. Uma semana depois a mulher volta ao estabelecimento, desta vez sem câmera. O vendedor pergunta quanto ganhará pelo seu direito de imagem.

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O capitalismo está tatuado em nosso corpo, somos o capitalismo. Estamos conectados. A internet cria espaços que nos dão a falsa idéia de liberdade, de democracia na informação. Vacilo do capitalismo? Falsa impressão. Os aparelhos (mp3, pen drive, celulares) entendidos como facilidades, são de fato tecnologias-do-aperto-de-mão da hiper-indústria com a população, controle do corpo. A ambiência é cada vez mais reduzida à paisagem, a um lance de olhar. A sociedade de controle substitui a fábrica pela empresa, o bem durável pelo descartável, e esses objetos tecnológicos se tornam, cada vez mais rapidamente, obsoletos. Estes objetos são a máxima expressão de um poder vertical de globalização (Milton Santos) sobre o corpo-lugar controlado e conseqüentemente autocontrolado do indivíduo cada vez mais isolado, porém rebanho (Nietzsche).

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áreas ares
tramas retramas
desarticulária
de áreas (ir)reais
o rosto implode
Marias-sem-vergonha explodem
camaleãocaleidoscópico

UAI utiliza parafernálias: não-objeto, componente; não-sujeito, errante; não- imagem, fragmento; urbis e www vistos como espaço do coletivo.

O museu é um forno.
[1] A vernissage acontecia: uma exposição com mais de 100 (sem) artistas de Brasília, todos sem receber nada: artistas patrocinando instituições culturais públicas.[2] Obviamente, ninguém fumava. O performer pega então um componente eletrônico, parte de CU 2, e faz deste um colar. Logo em seguida, encaixa o cigarro no colar e começa a fumar dentro do museu. Muitos se apresentam: “Deixa eu dar um trago?” Ninguém reclama. É uma exposição de arte.
[1] Museu-forno, museu-ovo, museu-eco, são atualmente denominações utilizadas para o recém inaugurado Museu da República em Brasília. Um museu sem projeto, sem verba, sem acervo, sem curador, ou simplesmente SEM, retrato da importância dada à cultura no Brasil no início do século XXI.
[2] Ver a proposta “Artistas Patrocinando Instituições Culturais”, de Maria Lucia Cattani e Nick Rands. http://www.artewebbrasil.com.br/APIC/APIC.htm acesso em 10/10/2007.

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Hábitos e costumes se desenvolvem estando, no entanto, em constante processo de formação. Dentre alguns exemplos citados por Nobert Elias (1995), estão os hábitos à mesa. Na sociedade medieval, o hábito de comer com as mãos era praticado pela aristocracia, nos feudos e na corte. Depois esse hábito passou por mudanças radicais nos séculos XVI, XVII e XVIII, permanecendo até a nossa época dentro de um padrão.

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Hoje as pessoas, dentro de uma galeria, se controlam para não incomodar a arte. O espaço institucional da arte está falido. Paradoxalmente, a arte que está em estado de composição permanente com a sociedade, incomoda e, assim, propõe um outro socius. O feirante, o cozinheiro, o vendedor, ambiências coletivas capazes de incomodar. Estes possuem o “privilégio do abandono” (BARROS, 2001).

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O lixo gerado pelos computadores obsoletos está cicatrizado em nosso cotidiano, ele compõe no caminho. A arte - CU, UAI- trabalha a reciclagem desse lixo, a re-visitação de corpos, a redefinição de objeto, a reciclagem do modo de usar os utensílios eletrônicos e virtuais.

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Um chat, uma conversa à toa, troca de imagens, uma página modificável pelo usuário (iteração), um componente desfuncional, desterritorializado, divíduos que estão no privilégio do abandono:
- A escultura é um objeto vivo se sua ambiência se perde em uma proposta efêmera: fazer da escultura uma prateleira onde se côa café.
- O pique-bandeira é um jogo que também alcança este privilégio. Trazer a ambiência-criança é forjar um novo jogo.
- “Choco Christ: 1 real. Deus é uma lagosta (Deleuze)”.
[1]Os exemplos acima citados, trabalhos artísticos multimediáticos, são parafernálias-ambiência: CU, composição com a cidade; UAI, compsição de internautas vagabundos afogados na rede mundial de computadores.
[1] Coar café na escultura dourada na entrada do Teatro Nacional, Brasília, o pique-bandeira e “Choco Christ” são trabalhos recentes do Corpos Informáticos, realizados em Brasília, em 2007. Pique-bandeira vem sendo jogado com freqüência na busca de criar um devir-criança de fato. Em “Choco Christ. 1 real” (um real, unreal) vendemos Cristos de chocolate (cerca de 15 cm de altura cada chocolate) por R$ 1, no Setor Comercial Sul, Brasília. Estas ações e imagens comporão um filme, no momento, em processo de edição.

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